
Durante décadas o Roque Santeiro recebeu a alcunha de maior mercado a céu aberto do mundo. São centenas de barracas espalhadas desordenadamente em meio ao caos e ao lixo, condições sanitárias nulas. Mas agora o mercado mais famoso do mundo vai acabar. Finalmente o governo vai transferir todos os vendedores para a Panguila, numa área organizada, com restaurantes, bancos e o mais importante condições sanitárias adequadas.
Essa transferência faz parte do programa do governo de requalificação do Sambizanga que vai transformar o perigoso e violento bairro num moderno distrito comercial e residencial, com muitos prédios modernos e caríssimos.
Bom, mas enquanto o futuro não chega e o mercado não muda, aproveitei o domingo passado para conhecer de perto o local.
Andando pelo mercado, um verdadeiro labirinto, não é difícil acreditar no ditado que diz “Se não tem no Roque é porque ainda não inventaram”.
Confesso que a primeira vez que vi o Roque tive medo de percorrer suas estreitas vielas, mas depois de andar alguns metros logo a gente se sente na 25 de março, mais suja, mais desorganizada e mais super lotada. É como se todos os camelôs de SP se juntassem no mesmo espaço de chão batido.
Calor insuportável, cheiro ruim e muita curiosidade. Não sei quem estava mais curioso, nós que passeávamos pelas fileiras intermináveis de barraquinhas ou os vendedores que nos seguiam com os olhos.
Realmente tem de tudo no Roque e por incrível que possa parecer, existe uma certa organização em meio a balburdia vista de cima. Não sei precisar ao certo qual a ordem, mas ao andar pelas “sessões” é possível identificar claramente seus segmentos, como num supermercado:
Beleza – com direito a fazer a sobrancelha ali mesmo no meio das barraquinhas, cabelos e mais cabelos, brasileiros, espalhados por todos os lados. Querendo é só párar ali mesmo e trançá-los.
Eletrodomésticos made in china, todos os tipos e qualidades.
Celulares: compra, vende, troca, acessórios, consertos e o que mais você desejar.
Alimentos de todos os tipos, desde enlatados amassados e enferrujados até frango e carne deitados a céu aberto sobre o tabuleiro, sem nenhuma refrigeração e claro muitas moscas.

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by Gustav NilssonVestuário feminino, masculino, infantil, cama, mesa, banho, sapatos e o que mais você precisar no Roque tem!
Reformando a casa? Materiais de construção aqui tem também. Ou precisando mobiliar? É só seguir em frente e lá estão camas, mesas, armários, sofás e até geladeiras e fogões.
Mas a fama de ter de tudo a preço baixo não se aplica a expatriados que como nós trazíamos na pele branca o $$$ estampado na testa.
Parei numa barraquinha onde havia uma batedeira a venda, sonho de consumo adiado a meses, pois aqui os preços são impraticáveis. Na caixa o valor de 1800 kwanzas, o equivalente a R$ 36 reais. Mas quando perguntei a senhora quanto custava ela logo disse KZ3.000 ou seja, R$ 60.
Chora daqui, chora dali, mostro a ela o preço da caixa, ela desconversa diz que não pode abaixar. Uma angolana se aproxima e não pergunta nada. Eu digo que ela quer comprar a batedeira e pergunto quanto custa pra ela. A moça ri e diz que é Kz 3.000.
Vou embora e peço pra ela pensar no preço que eu volto.
Outra barraca e uma caixa térmica é nosso alvo agora. De novo o preço vai as alturas. Argumento que no supermercado é mais barato a moça diz que não, que a que tem lá é outra de uma marca inferior.
Já estou quase desistindo de comprar qualquer coisa quando vejo uma bacia de alumínio, surpresa, surpresa está de graça cerca de R$ 4,00. Agora sim o Roque mostra a sua cara.
Volto na batedeira, mais um choro daqui um chora dali e coloco na mesa KZ 2500 pra levar agora. Quer ou não quer… A senhora chora mais um pouco, diz que assim só ganha Kz 100. Eu argumento que no supremercado é mais barato e ela aceita com cara de coitadinha.
Resultado final:
1 batedeira Kz 2.500
1 caixa térmica Kz 2.800
1 bacia kz 200
Conhecer os últimos dias do Roque Santeiro, não tem preço! PS: A batedera, made in china já quebrou!