segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Kareyce


O nome dela sugere uma carícia e é assim mesmo que a gente se sente ao ouvir sua voz doce.

Kareyce é uma cantora de Camarões que eu tive a sorte e o prazer de assistir ao show que ela fez em Luanda o ano passado.

Sem sombra de dúvidas foi o melhor show que eu já assisti em Angola.

A voz encantadora, ou sorriso cativante e um jingado que simplesmente é impossível ficar parado, transformam o show dela num turbilhão de sensações difíceis de se esquecer.

Kareyce esteve em Luanda o ano passado, a convite da Alliance Francesa, após vencer um concurso de cantores em lingua francesa na África. O sucesso foi tanto que agora ela está de volta participando da II Trienal de Artes de Luanda e ainda se apresenta em Cabinda e Lubango.

Infelizmente dessa vez eu não pude conferir de perto esse espetáculo, pois continuo no Brasil.

O próximo eu não perco de jeito nenhum!!!

Quem quiser conferir um pouco desse show é só clicar aqui

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Huambo: muito mais do que marcas da guerra



Uma volta ao passado, é como a gente se sente ao entar em Huambo, prédios que desafiam as leis da física com seus pilares de sustentação completamente destrídos, casas totalmente devastadas por balas permanecem emoldurando o cenário de uma cidade que corre atrás do prejuízo e tenta se firmar como pólo turístico.



Fomos ao Huambo no feriado que antecede o aniversário da cidade. Huambo estava completamente lotada, todos os 3 hotéis, simples, mas confortáveis e bem localizados estavam lotados, pensões, guest houses e pulgueirinhos lotados. Huambo simplesmente não cabia dentro de si.



Tudo por conta das festividades do aniversário natalício de Agostinho Neto que é homenageado na praça principal da cidade em uma bela estátua onde o poeta soldado é reverenciado.



Mas a atração principal é a corrida de carros e motos que acontece todos os anos nas ruas da cidade. A população lota as ruas do circuito para acompanhar desde cedo os preparativos. Vem gente de todas as províncias, principalmente de Luanda.



Huambo é bem diferente de Luanda, o clima mais ameno, as pessoas mais cordeais e simpáticas, não tem trânsito. Até os oficiais da polícia nos tratam muito bem, perguntamos se podemos tirar fotos do quartel general do exército que está em ruinas repleto de marcas de bala nas suas paredes. A resposta foi um sorriso de aprovação seguido de um caloroso “Bom turismo”. Nunca houvi isso em Luanda.



A estrada de Luanda até Huambo está em boas condições, tirando um pequeno trecho entre Kibala e Waku Kavo que tem muitos buracos e é necessário prestar muita atenção. A viagem é longa, sem direito a posto “Graal” para um cafézinho. Mas o cenário compensa, muito verde, muitas montanhas, rios e plantações.

Ao contrário das estradas que ligam Luanda a Benguela ou Malanje, aqui o caminho inteiro é marcado por plantações, pequenas e grandes, pastos e muitas aldeiazinhas perdidas no caminho. Sinal de que Angola está mesmo a mudar e começa a se preparar para ser o novo “celeiro do mundo”.

Os arredores de Huambo é repleto de áreas com alto potêncial turístico, principalmente para quem gosta de aventura e esportes na natureza. Mas ainda falta muito para chegar lá.



Quando saímos da estrada principal os acessos são muito difícieis, as pessoas não sabem nos informar direito como chegar aos locais onde estão as principais atrações e nenhuma estrutura é encontrada.

A Serra do Moco é o ponto mais alto de Angola, mas a estrada é péssima, a ilha dos amores é descrita como um local paradisiaco, mas além de difícil acesso é longe.

Bailundo a alguns kilometros é divulgado como um dos lugares imperdíveis onde a tradição e a cultura é mantida ao lado de belezas estonteantes. O antido reino do planalto central resistiu bravamente a invasão colonial durante anos. Os antigos reis estão enterrados lá e são até hoje reverenciados em cerimônias especiais presididas pelo soba da cidade que é descendente direto do rei.

Mas a população não sabe muito bem nada do que acontece. É difícil encontrar alguém que diga onde estão as tão aclamadas belezas estonteates.



Mesmo com toda a falta de estrutura turística a viagem vale a pena, sair de Luanda e respirar ao ar puro das montanhas, conhecer pessoas simples e calorosas. Visitar o local onde a guerra foi mais sangrenta, ver de perto a história do país. A casa onde Jonas Savimbi morava, o quartel general da Unita.



Apesar de ser um passado triste, não deve ser esquecido, pelo contrário. Deve ser lembrado para que nunca mais se repita.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Kimalanga


A semana passada foi bem agitada por essas bandas. Aconteceram vários eventos culturais. Primeiro teve o festival de banda desenhada no Camões que mais uma vez foi engraçadíssimo.

O ministério da cultura organizou no Cefojor a feira do livro e da canção e ainda no final de semana a Feira Nacional de Artesanato no parque da independência, que reuniu artesãos de várias províncias.

Todos os eventos foram muito interessantes, mas o que mais me emocionou foi ver um livro exposto em uma discreta barraquinha do Cefojor.

Logo que bati os olhos na capa lembrei dele, não tinha como esquecer. Há muito tempo que queria escrever sobre esse grande homem, mas faltava oportunidade, ou palavras a altura.

Trata-se do escritor angolano Fernando Baião, leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais da sociedade angolana.

Logo que comecei a escrever o blog ele sempre passava por aqui para deixar um recado, dar uma dica ou até mesmo uma bronca, rs.

Como um pai ensinava o significado das palavras em kibundo, a origem dos termos recorrentes e com certa tristeza relembrava da beleza dessa terra antes da guerra.

Com o tempo as visitas foram acabando e soube por intermédio da casa de luanda que ele estava doente e Angola acabou por perder um grande pensador, crítico e sagaz.

Kimalanga é um daqueles livros que a gente não consegue deixar de ler enquanto não acaba. Faz uma crítica bem humorada da sociedade angolana, revela as belezas da terra e as maneirices do povo. Tudo isso de uma forma muito descomprometida, como se ele estivesse aqui ao lado contando um “causo”.

Deixo aqui a dica de leitura e a homenagem ao grande escritor.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Copiou na cara dura


Estava eu fazendo algumas pesquisas na internet quando cheguei nesse blog. Fiquei indignada com a cara de pau dos autores que copiaram minha foto sem a menor cerimônia, não deram os créditos e ainda por cima colocaram um aviso legal dizendo que todas as imagens, textos e etc são de propriedade deles.

Para quem tiver dúvida basta ver o post de Porto Amboim publicado em 2008.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Um almoço no Chicala



Não sei se é o frio ou os quilinhos a mais que ganhei, mas ultimamente o tema comida e cozinha angolana têm me inspirado mais a escrever do que qualquer outra coisa.

Já falei que o angolano gosta muito de comer grelhados, aqui em qualquer esquina tem uma churrasqueirinha assando alguma coisa, principalmente peixe.

No Chicala você encontra dezenas de barraquinhas onde você pode sentar e comer um belo peixe assado no melhor estilo angolano com batata doce e banana.

Mas eu confesso que tem de ter uma certa doze de coragem e sublimar tudo que está em volta. O lugar fica a beira da praia o cheiro de peixe seco com lixo é muito forte.

Quando a gente chega logo vê uma montanha de lixo na praia. Sinceramente tive de me controlar para não dar uma de dondoca e pedir para ir embora.

Entre as barracas a coisa não é tão ruim, tem mesas e cadeiras e é razoavelmente limpo, já que se trata de chão de terra. Tem algumas moscas e é bem quente, pois as barracas estão ao ar livre.



Procuramos a barraca da Lú (81) que já haviam nos indicado como sendo excelente.

A Lú estava lá atarefada, mas nos atendeu prontamente, com muito sorriso e atenção, atendimento de primeira diga-se de passagem, muito melhor do que muito restaurante 5 estrelas da ilha. Aliás acho que o pessoal do Cais de 4 devia fazer um estágio com a Lú. Quem sabe eles aprendem alguma coisa.

A Lú mora bem em frente as barracas do Chicala, então sempre que precisa de alguma coisa da uma corrida até em casa pra pegar. É lá que ela guarda os peixes.



Logo ela aparece com uma bacia cheia pra gente escolher qual quer que ela asse. Os peixes estavam com boa aparência e segundo ela só o Calafate era fresco, o restante tinha sido congelado.

Pra mim que não entendo absolutamente nada de peixe, não fez muita diferença. Então logo perguntei qual o melhor deles e ela me indicou um Calafate, disse que era muito saboroso e que eu não ia me arrepender.

Segui o conselho dela e realmente não me arrependi.. Divino!!!

Depois que a gente escolhe o peixe ela vai temperá-lo com alho, sal, cebola, limão e caldo de peixe. Coloca na churrasqueira e ai é só esperar 20 minutinhos.



Enquanto o peixe vai pra grelha a Lú não mede esforços em nos atender bem, traz o vinho, amendoim, vinagrete e está sempre atenta para saber se precisamos de mais alguma coisa.

Ahhhhh se o pessoal do Cais de 4 fosse assim!!!

Quando o peixe chega está saborosíssimo. Confesso que não curti muito a banana com batata doce de acompanhamento, mas se tivesse um purezinho com legumes seria imbátivel.



Na Chicala você pode chegar a qualquer hora que as portas estão abertas, na verdade não tem portas, mas enfim dia, noite e madrugada tem peixe.

A Lú nos conta que lá vive cheio, principalmente a noite quando colocam a música. Ai vem gente de todo lado comer peixe no Chicala, vem cantor famoso, político e povão.



Uma verdadeira democracia gastronômica.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Um típico almoço angolano



É muito comum as pessoas me perguntarem o que se come em Angola, normalmente eu lembro do Fungi e dos pratos típicos portugueses, carnes em geral servidas com muita batata e azeite.

Mas a culinária angolana também é muito rica. Segue abaixo alguns exemplos dos pratos típicos em um almoço angolano:


Muamba de repolho: uma espécie de pasta feita de amendoim e repolho para se comer com a salada.


Muteta: carne seca com umas bolinhas feita de semente de abóbora (bom demais).


Feijão de palma: feijão branco feito com óleo de palma, ou azeide de dende.


Funji: é uma espécie de pure de mandioca, mas é bem mais pesado. Pela quantidade na bandeija dá para ver que o pessoal adora.


Muamba de galinha: é uma espécie de refogado de galinha rígia ou galinha caipira se preferir.


Banana e Mandioca: aqui se come muita banana e mandioca junto com a comida.

Além disso, se faz muito peixe assado, eu sou fã do Calafate.

Come-se muita carne de porco, e carnes estufadas, ou melhor, carnes ensopadas em geral.

Vocês notaram que não tem arroz? Pois é, não tem mesmo. Parece que só nós e os chineses não vivemos sem o santo arrozinho de todo dia.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Hereros



Dando continuidade as recomendações culturais do blog, que estavam um tanto quanto paradas, eu gostaria de recomendar a exposição de fotografias Hereros do Sérgio Guerra.

As fotos ficarão expostas no múseu de ciência natural, (ao lado do largo kinaxixi), até 26/08/10. Realmente vale a pena a visita.

As fotos são belíssimas e retratam o cotidiano de um povo que vive na fronteira entre a Namíbia e Angola. São pastores nômades com livre acesso entre os dois países.

Até hoje mantêm preservadas suas tradições, algumas para nós, ditos civilizados, podem parecer verdadeiros atos de tortura. Como por exemplo a tradição de fazer a circuncisão masculina sem nenhuma anestesia ou então arrancar os dois dentes de baixo das crianças a seco também.

Mas quem somos nós para dizer o que é certo ou errado? Certo mesmo é que na exposição vocês poderam conhecer um pouco mais desse universo que é tão desconhecido dos próprios angolanos quem dirá dos expatriados que vivem em suas confortáveis bolhas.

A melhor parte da exposição infelizmente só quem esteve na abertura viu. O Sergio Guerra, trouxe para a abertura alguns integrantes desses povos, entre eles um soba que não se fez de rogado e de cima de seus oitenta e tantos anos, bateu o cajado e cobrou das autoridades, da população e dos meios de comunicação que ajudem a manter a tradição.

Disse que seu povo passa fome, não tem hospital, não tem escolas e estão esquecidos. Clamou para que o governo olhe por eles, afinal eles são a última herança de uma tradição a muito esquecida pelas grandes cidades.

Ele falou na lingua dele, que agora já não me lembro qual é e foi traduzido por outro integrante mais jovem da tribo.

Ao final do discurso, deu gosto ver todos os presentes aplaudirem, agora resta saber o que o governo vai fazer de concreto para ajudar a manter a cultura e a tradição desse povo e ao mesmo tempo amenizar as dificuldades.